Domingo no Brique

Criado em Quinta, 08 Agosto 2013

 

 

 

Domingo no Brique

 

Scyla Bertoja

 

Apesar de morar em Porto Alegre há trinta e três anos, eu jamais havia visitado o famoso Brique da Redenção, o que fiz hoje por sugestão de um amigo. Solitária em meio à multidão que se acotovelava entre os estandes de exposição e venda das mais variadas formas de artesanato, comecei a ver pessoas com caras de domingo, expressões relaxadas, rindo alto entre comentários com seus acompanhantes. Grupos de mulheres maduras alegres em seus trajes esportivos colados aos corpos esguios malhados e carentes de glicídios, lipídios e carboidratos. Pensei: Como elas conseguem nessa idade?

Possivelmente a genética me daria uma resposta satisfatória. E a nutricionista me daria um programa especial para ficar igual a elas. E, claro, eu morreria poucos dias após iniciada a dieta. Encontrei conhecidos que não me reconheceram, e outros que agarrei, literalmente, para que notassem que eu era eu. Abracei gente querida, almocei com parentes, comprei alguma coisa antiga e voltei para casa cansada.

Nada como a grande janela do décimo andar para reafirmar convicções relativas à imensa graça de estar viva. Mas não é tão simples assim. O sol se pôs. Hoje, de modo especial. Aquarela inimitável e fugaz. Fui rápida. Providenciei o fundo musical adequado, meu sonho recorrente, trilha sonora de Manhattan (Woody Allen), Gershwin. Observei todos os detalhes do trabalho da natureza desmontando o cenário da tarde, ao mesmo tempo em que, não sei de onde, surgia delicada e célere, a noite. A rapsódia azul injetava encantamento em minhas veias atrofiadas pela rotina de quem vive à espera. Enlouquecida pela presença das lembranças, dancei pela sala, esquecida do tempo e da minha realidade. 

Naquele momento só havia acordes, ritmos, melodia. Lá fora o manto negro se instalara e a lua e as estrelas pálidas de espanto não conseguiam despregar seus olhos iluminados da cena insólita que eu lhes oferecia. Quando a música terminou, caí exausta sobre a poltrona e comecei a chorar. A lâmina brilhava sobre a mesa, mas não tive forças para alcançá-la. Mariposa estonteada pela profusão de luz, asas chamuscadas, cansada de dançar, desisti. Quem sabe num próximo pôr de sol, quando a loucura voltar com as cores do crepúsculo derradeiro.

 

 

 

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