Na Feira com Veríssimo

Criado em Quarta, 18 Setembro 2013

 

 

 

Na Feira com Veríssimo

 

Daniel Gruber, Adriele Schtscherbyna, Luiza Costa Schmidt,
Luis Fernando Veríssimo, Cláudio Rocha,
Luana Cruz e Joni Luiz Weiss

 

A Feira do Livro de Porto Alegre acontece anualmente no final de outubro e meados de novembro. Criada em 1955, tem o objetivo de promover o hábito da leitura e é realizada no coração do Centro Histórico da cidade, no entorno da Praça da Alfândega. A 58ª Feira do Livro de Porto Alegre aconteceu no período de 26 de outubro a 11 de novembro de 2012.

História Coletiva foi uma novidade introduzida nas atividades Feira do Livro em 2012 pelo Grupo RBS, em parceria com o Grupo Zaffari. 
Os escritores Luis Fernando Verissimo e Claudia Tajes iniciaram pequenos contos que foram completados pelo público por meio de um site especial na zerohora.com. Os autores das melhores histórias, escolhidas pela equipe de jornalistas da Zero Hora, ganharam vale-compras em livros e tiveram seu texto publicado na versão online do jornal.

O desafio lançado ao público veio com as perguntas:

O que você acharia de ter seu nome como co-autor de uma história iniciada por grandes escritores gaúchos? Que tal ajudar a escrever uma história online em que você pode decidir o rumo da narrativa e o que vai acontecer?

A trama iniciada por Luiz Fernando Veríssimo teve a continuação de seis capítulos e é apresentada abaixo, na sequência dos textos vencedores do concurso:

 

HISTÓRIA COLETIVA

 

Primeiro trecho – por Luis Fernando Veríssimo

Maria Helena ficou impressionada quando ouviu Monica dizer:
— Foi um livro que mudou a minha vida.
Mas Monica não se lembrava do título do livro. Só sabia que o nome do autor era Melciades qualquer coisa.
— Essa família Qualquer Coisa é grande... — ironizou Maria Helena.
— Não me lembro do sobrenome — disse Monica. — Pensando bem, nem sei se o primeiro nome dele é Melciades mesmo. Sei que tem mel no meio. Ou no começo.
— Você me empresta o livro?
— Não sei que fim levou. Fiz tanta propaganda que me roubaram. Ou eu dei, sei lá. Só sei que ele mudou minha vida.
— Como, mudou sua vida?
— Mudou tudo. Alma nova. Li o livro e foi como trocar de alma.
Maria Helena concluiu que já conhecera Monica de alma nova. Não sabia como era a amiga antes da troca. Sabia que Monica era a pessoa mais resolvida e alegre que conhecia. Monica cantava num coral. Participava de caminhadas com um grupo de excursionistas. Tinha um namorado boliviano com perfil de águia. Era bonita. Tinha mais de trinta com uma cintura de quinze. E ria. Ria muito. Ria de tudo.
— A tese do livro é que você pode comandar a sua vida. Você tem o domínio da sua alma. Aliás, acho que o titulo do livro é mais ou menos esse. Você pode ser outra pessoa, é só querer.
E eu quero, pensou Maria Helena. Eu preciso ser outra pessoa. Minha vida está desgovernada. Vinte e nove anos, nenhuma perspectiva no escritório de advocacia em que trabalho mais e ganho menos do que os outros, dois namoros frustrados, um dos quais acabara com uma cena feia no corredor do prédio que lhe custara o apartamento, uma vida decididamente sem governo. Eu quero ser outra, pensou Maria Helena. Eu quero ser a Monica.
E então Maria Helena leu que um autor chamado Melciades estaria dando autografo na Feira do Livro. Melciades Stoffer. Perguntou a Monica se aquele poderia ser o autor do seu livro mágico. Pode ser, pode ser, disse Monica. Mas também pode não ser. A notícia no jornal não incluía nenhum outro dado sobre Melciades Stoffer e sua obra. Não dizia nem se ele era gaúcho. Ele seria um entre muitos autores que dariam autógrafos na mesma hora. Monica estaria lá para pegar seu autógrafo? Não, não. No dia em que Melciades Stoffer estaria autografando na Feira Monica estaria participando de um Congresso de Otimistas no México. Só a Monica mesmo para descobrir um congresso de otimistas. A nova Monica.
No dia dos autógrafos, Maria Helena foi à Feira. Pouca gente na fila de Melciades Stoffer. Talvez só parentes. Melcíades Stoffer tinha os cabelos brancos mas não era velho. Uma cara meio difusa, como se faltasse ajustar o foco. Maria Helena aproximou-se da sua mesa apertando um caderno contra o peito. Disse:
— O seu livro mudou a minha vida.
— Epa — disse Melciades Stoffer.
— Eu hoje sou outra pessoa. Alma nova.
Se ele perguntar "qual dos meus livros mudou sua vida?" eu estou frita, pensou Maria Helena. Mas Melciades Stoffer só repetiu:
— Epa.
E depois perguntou se Maria Helena não aceitaria tomar um café com ele. Meu Deus, pensou Maria Helena. Café com Melciades Stoffer! Minha nova vida pode estar começando agora!

Segundo trecho – por Adriele Schtscherbyna 

— Errr, claro! Quando? Onde?
Melciades respondeu:
— A minha sessão vai até as 17 horas, se você puder me esperar, agradeço.
— Claro, espero sim. Vou dar uma volta pela Feira e volto aqui nesse horário.
Bem, tenho exatas duas horas para procurar, comprar e ler o livro dele antes que eu coloque tudo a perder ao abrir a boca. Maria Helena poderia dar as costas e ir embora, sem correr o risco de ser desmascarada pelo autor e passar por mais uma vergonha em sua vida. Porém, algo a atraía para perto daquele homem e ela tinha a certeza de que ele, e seu livro, seriam a solução para todos os seus problemas.
Percorreu a Feira, indo em cada estande, e não encontrava o bendito livro em lugar algum. Passou até na área internacional, sem sucesso. Já são 16h50, vou voltar e seja o que Deus quiser. Chegando lá, o homem estava se despedindo dos leitores e, sorrindo, foi ao seu encontro. Ela avistou um estande ao lado da praça de autógrafos que vendia os livros dos autores que ali estavam. Tarde demais.
— Vamos até o café do Margs?
Maria Helena sorriu. Sentaram-se e pediram dois expressos. Enquanto aguardavam, Melciades puxou assunto:
— Mas, me diga, estou curioso em saber como que um livro sobre anestesia e analgesia em animais mudou a sua vida? És veterinária?

Terceiro trecho – por Daniel Gruber 

Normalmente, nessas situações, você tem pouca opção. Uma delas é fingir que se engasgou com um pedaço de frango e torcer para que não tenha nenhum médico no local. Infelizmente, eles não pediram nada para comer. A outra opção era inventar o que viesse à cabeça. Era mais o estilo viver-sem-pensar-nas-consequências.
— Minha palestra sobre fisiologia equina em Sorbonne foi baseada no seu livro — disse Maria Helena.
Foi o único nome que lhe veio quando pensou em algo muito longe. Todo mundo sabe que, quando a mentira é veementemente exagerada, há muito mais chance de se parecer real.
— Não entendi — disse Melciades.
— O que uma veterinária estaria palestrando numa escola de Arte?
A terceira opção era correr para o banheiro e pular a janela. Ou fingir que esqueceu o filho no shopping. Muito mais fidedigno. Em último caso, desmaiar. Estava quente, muita gente sofre de pressão alta. Baixa. Qual das duas é mesmo? Continuar era para neurótico.
— O senhor sabe, anatomia animal para alunos de Desenho...
Epa. Não havia nada a perder, de qualquer forma. Como era mesmo o nome do livro que ela deveria ter lido? Não importa. Sua vida estava tão desgovernada que só algo muito improvável, como uma comitiva de alunos de Sorbonne, poderia colocar ordem na sua ruína social. Então, uma comitiva de intercâmbio de alunos de Artes de Sorbonne entra no Margs.

Quarto trecho – por Cláudio Rocha

E agora, o que fazer? Talvez mudar de assunto... Vamos ver... Curioso seu nome, não me lembro de ter conhecido outro Melciades na vida. De repente, algo que mudou o curso da história:
— Eu conheci e prefiro não falar muito nisso!
— O quê?
— Um cretino, um ordinário que prometia salvar almas! Imagine só, salvar almas perdidas!
— Isso muito me interessa. Desculpe a curiosidade mas quem é esse Melciades?
— Melciades Polidoro! Ainda vendiam livros dele no Sebo Tubino!
É isso! E Maria Helena saiu correndo deixando o pobre Melciades sem entender nada. O Sebo Tubino era ali perto. Agora é só achar o livro, comprá-lo e pronto! Minha vida vai mudar radicalmente. Mas antes precisava enfrentar o terrível atendente do sebo Tubino: seu Adamastor! Seu Adamastor tinha mais ou menos uns 120 anos e um leve problema de surdez!
— Eu gostaria de um livro de Melciades Polidoro!
— Marcinha Dolivoro?
— Melciades Polidoro!
A senhora poderia falar um pouquinho mais alto e pausado?
— MEL...CÍ...A...DES PO...LI...DO...RO
— Ah esse, Melciades Polidoro! Sim, sim, temos o livro!
— Então me venda pelamor de Deus!
— Tem, só que acabou! O último vendi semana passada.
— Pelo menos me diga para quem vendeu e qual o nome do livro, gritou Maria Helena, quase desesperada e arrancando os cabelos da cabeça do seu Adamastor!
— O nome do livro não lembro. Mas vendi para Carlos Winklovsaarbeden!

Quinto trecho – por Luiza Costa Schmidt

Maria Helena ficou chocada. Aquilo não estava acontecendo com ela! Era muito azar. De repente, sentiu-se toda mole. Caminhou até o Cais do Porto e pediu um suco. Com certeza era ele. ‘Como pode o mundo ser tão pequeno?’, pensou. De repente, a cena mais humilhante de sua vida foi relembrada.
Carlos Winklovsaarbeden, mais conhecido como Carlinhos wink-wink, ex- colega de faculdade de Maria Helena. Bonitão, era o desejo de muitas alunas do curso de Direito. O único problema é que sabia que era bonitão. E não sabia da existência de Maria Helena, que sonhava com ele diariamente. Sem saber o que fazer, Maria Helena procurou uma cartomante ‘de primeira’.
Taxativa, a cartomante disse que podia unir os pombinhos, mas que precisava de uma peça do vestuário do moço para fazer o trabalho. Tudo teria dado certo, não fosse a porcaria do celular de Carlos tocar bem na hora em que Maria Helena saía do bar da faculdade com a jaqueta de couro dele em suas mãos. Foi um escândalo. Ninguém acreditou que ela havia achado a jaqueta no estacionamento... Trocou de faculdade e nunca mais viu ou soube de Carlos.
Ainda sentada no Cais do Porto, finalmente tomou o suco, pensando se realmente valia a pena correr atrás do tal livro. Foi então que teve uma grande ideia!

Sexto trecho - por Joni Luiz Cezar Weiss

Maria Helena só tinha uma saída, voltar ao café do Margs na esperança de que Melciades, o Stoffer, ainda estivesse lá. Ao passar pelo estande ao lado da praça de autógrafos ali estava ele, a remexer nos livros de saldo a cinco reais.
— Olhe, desculpa ter saído assim, daquele jeito. É que eu preciso encontrar um livro do Melciades Polidoro, aquele que salva almas perdidas, mas o Sebo Tubino vendeu o último na semana passada. A verdade é que eu ainda não li esse livro, mas preciso ler, sei que vai mudar minha vida.
— Epa — disse Stoffer — Primeiro explique uma coisa. Aquela tal palestra sobre anatomia animal, sobre fisiologia equina em Sorbonne não faz nenhum sentido.
— Sério? Então vamos fazer o seguinte, você me conta onde achar o Polidoro, pois se o tem como cretino e ordinário é porque o conhece, e depois eu explico aquele negócio da Sorbonne.
Melciades Stoffer não tinha a menor intenção de contar a verdade, de dizer que Polidoro era seu pseudônimo.

Sétimo trecho - por Luana Cruz

Sempre se sentiu constrangido com a ideia daquele livro, mas precisava de dinheiro na época; sorte sua, pensava, foi usar um falso sobrenome.
— Esses livros de autoajuda são todos iguais, por que procurar por um que nem existe mais?
— Não, você não entende! Uma amiga minha leu este livro e realmente mudou a sua vida. Deu certo com ela, vai dar comigo! Eu fui até o sebo, mas ele foi vendido semana passada...
Se Melcíades acreditasse em uma só palavra do que tinha escrito, até esboçaria alguma vaidade. Mas, ao contrário, a insistência de Maria Helena deixava-o em pânico. A fala interrompida de Maria Helena também era de pânico, só de lembrar do atual dono do livro tinha calafrios.
Melcíades pensava no quão assustador seria se o livro fosse encontrado (havia uma pequena foto sua). Ela começava a pensar no quão horrível seria rever o Carlinhos. Se este frequentasse a Feira, poderia reconhecer o autor, ou a ex-colega. Unidos pelo medo, tiveram a mesma ideia:
— Vamos continuar a conversa em outro lugar.
— Tem um café aqui perto.
Mais calmos, mudaram de assunto, divertiram-se e combinaram um reencontro ali mesmo. Para a próxima semana, ainda bem.
Pois para o próximo mês, talvez Maria Helena já tivesse reparado na fatura do cartão a razão social do lugar: Cafeteria Carlos Winklovsaarbeden.
"Fuja do seu destino" era a última frase do livro de Melciades Polidoro. Uma farsa!

 

Vídeo mostra como foi o encontro

 

FONTE: Jornal Zero Hora de 9 de novembro de 2012

 

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