A Estrada de Ferro

Criado em Quinta, 13 Junho 2013

 

 

 

A Estrada de Ferro de Porto Alegre

 

A histórica linha férrea de Porto Alegre teve origem no propósito da administração da cidade de melhor atender a uma necessidade sanitária. No final do século XIX a Intendência Municipal oferecia o serviço de entrega e remoção domiciliar de pequenas fossas, chamadas cubos ou cabungos, que colocadas sob os assentos dos banheiros acumulavam os excrementos fecais. Esse serviço procurava remediar a falta de esgoto. O material fétido e insalubre era encaminhado até a chamada “Ponta do Dionísio”1 no hoje Bairro Assunção e, mais tarde, até a “Ponta do Asseio” ou “Ponta do Mello” 2, atual Bairro Cristal.

Como não havia esgotos, tampouco fossas ou sumidouros, a solução encontrada foi o transporte dos excrementos em “cubos”, com uma abertura na parte superior onde era atarraxada uma tampa para vedação e transporte.

Cabungueiro executando o seu ofício. 3

 

O primeiro destino definido para o despejo dos dejetos foi o trapiche localizado ao lado da cadeia pública.

 

 

O detalhe no mapa de 1888 destaca o trapiche na confluência das ruas Riachuelo e Duque de Caxias, junto à praia. 4

Ramiro Barcelos (médico e político) defendeu um destino mais apropriado para os dejetos, longe do centro urbanizado. Uma comissão médica sugeriu a Ponta do Dionísio, ao sul, a uma distância de aproximadamente dez quilômetros do centro, para o despejo e limpeza dos cubos. 5

 

Decidido o local, passou-se a discussão de como fazer o transporte: se fluvial ou por ferrovia.

 

Ciente de que o Conselho unanimemente reconhece a necessidade urgente de remoção das matérias excrementícias para a Ponta do Dionísio, local indicado pela Comissão Médica, encarregado de dar parecer a respeito, havendo apenas alguma dúvida sobre o meio de transporte a adotar. (...) Diz que sabe o Conselho que quase todos os melhoramentos projectados pelo Intendente para cuja realização completa é necessario um empréstimo de setecentos contos de réis, são reclamados desde muitos anos pelas autoridades competentes e pela opinião popular sem dúvida porque esses melhoramentos interessam muito de perto a saúde pública. Diz que agora mesmo acaba a inspectoria de higiene de declarar ao Intendente que a construção da Estrada de ferro para a Ponta do Dionísio é inadiável, que é necessário remover quanto antes o despejo das matérias excrementícias do local ao lado da cadeia civil.” 6

 

De acordo com o exposto pode-se concluir que foi a necessidade de dar um novo destino aos dejetos fecais que levou a efetiva criação da chamada Ferrovia do Riacho. O traçado da estrada é mostrado na imagem abaixo:

 

Mapa de Porto Alegre de 1896, do IHGRGS. Edição Webpoa

 

Após um processo litigioso com José Joaquim Assunção dono da área onde situava-se a Ponta do Dionísio, a reconstrução e conclusão da estrada foi efetivada em 1889 e a Intendência Municipal optou pela Ponta do Melo como local dos despejos a partir de 13 de novembro daquele ano. 7

Sérgio da Costa Franco, em seu Guia Histórico de Porto Alegre, explica que:

“a postulação do proprietário José Joaquim Assunção, dono da área da Vila Assunção, inconformado com a implantação da ferrovia em suas terras, sem indenização. Como decorrência (...) a reconstrução da Estrada de Ferro do Riacho em 1899 fez-se até a Ponta do Melo, onde se construiu um trapiche para o despejo das fezes no rio, sendo retirado o segmento final que ia até a Ponta do Dionísio. Em compensação, implantaram-se 800 metros de trilhos até o Bairro da Tristeza. Esse último trecho, posto em tráfego desde 14/01/1900, viria a ter um importante significado social, marcando o início da expansão da Tristeza como local de veraneio e foco de lazeres da população burguesa de Porto Alegre. 8

O trapiche da Ponta do Melo

 

Notas publicadas na imprensa dão conta de como era o serviço prestado aos usuários da Estrada do Riacho:

Correio do Povo do dia 11 de março de 1909, noticiava (preservada a grafia da época):

Apanhada por um trem - Hontem, ao meio-dia, um trem da estrada de ferro do Riacho, nas immediações da rua Barbedo, apanhou Maria Francisca da Conceição, vulgo Marajó, que imprudentemente atravessava a linha. No ambulatório do 2º posto, Marajó recebeu curativos, em ferimentos e contusões na omoplata esquerda. Depois de pensada recolheu-se ella á sua residencia. O capitão Leonel Correia, administrador daquella estrada, apezara da casualidade do facto, puniu os machinistas do trem.

Correio do Povo do dia 29 de outubro de 1910, noticiava (preservada a grafia da época):

ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DA TRISTEZA

De 1 de novembro proximo em diante, vigorará, nessa estrada, o seguinte horário:
Dias uteis - Partidas do Riacho: ás 6, 8 e 10 horas da manhã, e ás 2, 4 e 6 da tarde; partidas da Tristeza: às 6.45, 8.45 e 10 horas da manhã e ás 2.45, 4.45 e 6.45 da tarde.

Domingos - Partidas do Riacho: ás 6, 7.30, 9 e 10.30 da manhã; e ás 1.30, 3, 4.30, 6 e 7.30 da tarde; partidas da Tristeza: ás 6.45, 8.15, 9.45 e 11.15 da manhã; ás 2.15, 3.45, 5.15, 6.45 e 8.15 da tarde. Para attender á exigencia do serviço, a Directoria de Obras poderá alterar esse horario.

Correio do Povo do dia 14 de dezembro de 1911, noticiava (preservada a grafia da época):

Estrada de ferro do Riacho - Alguns trens dessa estrada iniciaram, ante-hontem, ás 2 horas da tarde, o serviço de trafego do extremo da rua General Auto, ao começo da rua Duque de Caxias. Foram reduzidos os preços das passagens pela seguinte fórma: Da rua General Auto á rua Caxias e desta ao Asylo de Santa Thereza e dahi ao Crystal ou á Tristeza, 200 réis. Os trens occupados pelo Asseio Publico foram separados dos de passageiros

Zero Hora do dia 24 de janeiro de 2011:

Do Centro para a Tristeza

No início do século 20, os porto-alegrenses que queriam fugir do calor do verão podiam tomar o trem, junto ao Mercado público, no centro e seguir para a Tristeza. A estação de Ildefonso Pinto, na esquina da Avenida Borges de Medeiros com a Avenida Mauá, foi construída e inaugurada em 1927 para ser o ponto inicial da ferrovia Riacho-Tristeza, linha que já existia desde o final do século 19. A Ildefonso pinto era também interligada à linha da Viação Férrea do Rio Grande do Sul (VFRGS). Alguns trens partiam dali para o Interior, passando pela Estação central de porto Alegre.          A E.F. Riacho foi aberta em 1899 para o transporte de dejetos, despejados no trapiche da ponta do Mello, na Zona Sul. A partir de 1900, a ferrovia passou a transportar também passageiros, bagagens e mercadorias. A Estação do Riacho ficava na região onde hoje é o Bairro Azenha. Tinha esse nome porque ficava à beira do Arroio Dilúvio que, naquela época, desembocava no Guaíba naquele ponto. A Ildefonso Pinto, portanto, acabou sendo o ponto intermediário entre as estações central e do Riacho. Nos anos 30, a Riacho-Tristeza foi desativada, mas a Ildefonso pinto seguiu funcionando para a VFRGS. Foi demolida somente em 1972.

O blog do Conselho Municipal de Cultura de Porto Alegre (27/04/2011) faz um resumo da história da Ferrovia do Riacho, tendo como referência a dissertação de mestrado do arquiteto André Huyer intitulada A Ferrovia do Riacho: Um Caminho Para a Urbanização da Zona Sul de Porto Alegre, doada por ele ao Arquivo Histórico de Porto Alegre Moysés Vellinho:


A origem remonta ao final do século XIX, por necessidade de transportar os dejetos para serem jogados no Guaíba, em local periférico, poupando a região central da Cidade. A primeira viagem na ferrovia para despejo sanitário na Ponta do Melo foi em novembro de 1899. Como vemos, a prioridade de transporte ferroviário para a zona sul era de asseio, saneamento.

Mas em 1900, o trem iniciou o transporte de passageiros,como alternativa às diligências e ao transporte fluvial. Os moradores do centro eram atraídos por um ambiente mais higiênico e próprio para veraneio como era a zona sul com praia e ar puro, local bom para a saúde,segundo os médicos da época. O fluxo de veranistas para a Tristeza e Pedra Redonda provocou um surto de desenvolvimento,com aumento de consumo de produtos hortigranjeiros e pecuários, início da prestação de serviços na área terciária, loteamentos de chácaras. Já em 1901, abriram os primeiros hotéis na Tristeza.

No entanto, a Ferrovia do Riacho começou a decair nos anos 30, no governo de Alberto Bins, que, por problemas financeiros da Intendência, ofereceu a ferrovia para o Estado. Na época, os ônibus faziam forte concorrência aos trens.
A VFRGS assumiu a Ferrovia do Riacho mas, por problemas estruturais e conjunturais, desativou o transporte de passageiros em 1936 e o de carga em 1941.Com a enchente no mesmo ano, a ferrovia foi destruída e não recuperada
.” 9

FONTES

1 A denominação “Ponta do Dionísio” procede da sesmaria de Dionísio Rodrigues Mendes uma das três que deram origem ao município de Porto Alegre.

2 De acordo com pesquisador Padre Ruben Neis, com uma petição de 1888, Francisco Luiz de Melo requereu a posse das terras fronteiras com sua chácara. De onde, provavelmente, decorre o nome – Ponta do Melo. Citado por Sérgio da Costa Franco em seu Guia Histórico de Porto Alegre, Editora da UFRGS, 2006, Pg. 125.

3 Alves, Helio Ricardo, Porto Alegre foi assim..., Editora Sagra Luzzato, 2001.

4 IHGRGS - Virtual História-Urbana de Porto Alegre, 2005).

5 Câmara de Vereadores de Porto Alegre, Ata da Sessão de 27 Nov 1883, Pg. 56, citado por André Huyer em A Ferrovia do Riacho: Um caminho para a Urbanização da Zona Sul de Porto Alegre, 2010, Pg 54. Arquivo Histórico de Porto Alegre Moysés Vellinho

6 Câmara de Vereadores de Porto Alegre, Ata da Sessão de 27 Nov 1883, Pg. 52, citado por André Huyer em A Ferrovia do Riacho: Um caminho para a Urbanização da Zona Sul de Porto Alegre, 2010, Pg 55. Arquivo Histórico de Porto Alegre Moysés Vellinho

7 Relatório da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, de 19 de novembro de 1900, citado por André Huyer em A Ferrovia do Riacho: Um caminho para a Urbanização da Zona Sul de Porto Alegre, 2010, Pg 62.

8 Franco, Sérgio da Costa, Guia Histórico de Porto Alegre, Editora da UFRGS, 2006, Pg. 154 e 155.

9 http://cmcpoa.blogspot.com/2011/04/ferrovia-do-riacho.html

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