A Rua da Praia

Criado em Sábado, 15 Junho 2013

A mais antiga rua da nossa cidade, referida por historiadores e motivo de inspiração para poetas cronistas e escritores, mereceu de Antônio Álvares Pereira Coruja a seguinte menção:

““Não estava escrito se na época primitiva havia mato ou simplesmente macegal; é, porém, de crer que houvesse uma ou outra coisa, e que os primeiros povoadores fizeram algumas derrubadas na colina e escolheram na praia algum lugar de embarque ou desembarque.” Ora, segundo a tradição, a ermida ou capela de São Francisco era na Quitanda Velha ou imediações do Beco do Fanha1 e, portanto, aí se foram acomodando os primeiros povoadores formando o que depois se chamou Rua da Praia. Eis, pois, a Rua da Praia (...) a rua mais antiga da cidade.” (...) “Sempre por esse nome foi conhecida a rua que nos arquivos do antigo Senado da Câmara tinha o nome de Rua da Graça, nome com que o povo não engraçou. (...) Era esta rua a moradia quase exclusiva dos comerciantes e por isso com valiosos edifícios: hoje a praia só tem o nome, e é a que tem placa de Rua dos Andradas.” 2

A primeira referência oficial ao nome da rua foi feita em 10 de fevereiro de 1774, e também citado no registro de transação de imóveis em 17 de março de 1781, conforme Sérgio da Costa Franco:

“Em 10-Fev., “visto haver outra casa melhor de telha” para sede da câmara, esta decidiu alugar “umas do tenente João da Costa Severino na rua Direita da Praia que são de telha”, pelo aluguel de 8 pacatas por mês. Donde se pode concluir que a primeira sede da Câmara tinha cobertura de palha. “Direita da Praia” é a primeira denominação de rua que aparece nas atas da Câmara e certamente corresponde à pioneira Rua da Praia.” 3

“Em 17-mar., no Livro nº do 1º Tabelionato já encontramos uma escritura de compra e venda de umas casas “de taipa de mão, cobertas de capim”, na Rua da Praia, com frente ao norte, sendo vendedores Ventura Pimentel e sua mulher e comprador o alferes José Joaquim Pereira. Ventura Pimentel era açoriano da Ilha Graciosa e um dos primeiros povoadores do Porto dos Casais.” 4

O site da prefeitura relaciona alguns eventos importantes na evolução da rua que começava na ponta do gasômetro: a histórica Praça da Quitanda do final do século XVIII, hoje Praça da Alfândega; o primeiro calçamento em 1799; o início da construção da Igreja Nossa Senhora das Dores, a mais antiga da cidade, em 18075; a denominação de Rua da Graça como ficou conhecida até meados de 1843; a alteração do nome para Rua dos Andradas em 1865, mesmo ano em que o antigo calçamento foi refeito, com sarjetas adjacentes a cada um dos passeios; 6A fundação do Clube do Comércio em 1896. 7

A Rua da Praia passou a ser a nossa referência urbana e palco de manifestações sociais com seu comércio, seus clubes, seus grandes hotéis, cinemas, cafés e livrarias. Foi cenário para o footing, de quem queria ver e ser visto, com o desfile das senhoritas para os olhos ávidos dos rapazes.

 

 

O footing da Rua da Praia foi tema de uma crônica publicada no Jornal Correio do Povo no dia 20 de março de 1974:

"(...) Entretanto, o meio-fio da Rua da Praia não pode desaparecer sem um necrolégio. No tempo do 'footing', quando as garotas (hoje quarentonas e cinquentonas) desfilavam pela calçada, fingindo olhar as vitrinas das Casa das Sedas, da Vila de Bruxelas, da Casa Tschiedel, da Ilha da Madeira, os galãs se instalavam na sarjeta e apoiavam o pé no cordão, em postura altamente admirativa. Era uma época de jaquetões com sólidas ombreiras, calças de boca estreita e cabelos alisados a Glostera ou Gumex. E as piadinhas galantes subiam da sarjeta ao passeio como tímidos pedidos de afeto. Muitos amores nasceram daquele duelo de olhares entre a passarela do 'footing' e os paralelépipedos, na saída da matinê de sábado ou da 'primeira sessão'. Amores que se cozinhavam lentamente, pois as gurias não desciam da calçada e os rapazes demoravam a 'encostar'. O meio-fio era uma muralha que só se transpunha com muita certeza do sucesso. Agora, tudo se nivela e confraterniza num calçadão que prometem adornado e florido. Sem barreiras. Mas é obra que vêm com trinta anos de atraso, depois que jogamos fora nossos jaquetões de ombreira e os próprios cabelos 'glostorados' (...)". 

Referindo-se ao footing, Sergius Gonzaga escreveu que:

Suas imagens de um mundo já esmaecido nos permite mergulhar nostalgicamente numa Porto Alegre provinciana (ainda que charmosa), dominada por bondes elétricos e raros automóveis, cheia de chaminés que atestavam sua pujança industrial, enquanto mocinhas de família passeavam às cinco da tarde, na Rua da Praia, embasbacando com sua beleza rapazes espinhentos e respeitáveis cavalheiros enfatiotados. Uma Porto Alegre guardada no inconsciente coletivo com suas lembranças reais ou lendárias, uma cidade que veio se transformando continuamente até hoje, graças à labuta de seus habitantes e à visão ousada de seus principais governantes. “8

Desde a sua origem, muitos dos viajantes que passaram por nossa cidade relataram suas impressões sobre a Rua da Praia. Como Saint-Hilaire que, em 1820, assim a descreveu:

É na Rua da Praia, próximo ao cais, que fica o mercado. Nele vendem-se laranjas, amendoim, carne seca, molho de lenha e de hortaliças, principalmente, couve. Como no Rio de Janeiro, os vendedores são negros. Muitos comerciam acocorados junto à mercadoria à venda, outros possuem barracas, dispostas desordenadamente. 9

Como Berilo Neves que, em 1932, assim relatou:

Porto Alegre, como uma cidade encantada do tempo em que até as cidades se encantavam, é uma festa para os olhos e uma alegria para o coração. (...) A rua da Praia é uma rua ‘coquette’, que ainda não teve a idéia burguesa de se casar. Uma rua bonita, bem feita de corpo, que tem a alma leve e o passo miúdo... Toda a gente a namora, e ela namora a toda a gente... (...) Está sempre sorrindo, a rua da Praia! (...). À noite, sorri pelo sorriso claro dos seus anúncios, que são frases de luz, berrando, escandalosamente, dentro da treva... Uma rua feliz, a rua da Praia! Porto Alegre, sem a rua da Praia, seria uma cidade sem alma. Uma cidade mutilada. Uma cidade semi-morta. Porque esta rua amável, que acolhe bem a toda a gente, é a rua mais faceira do Rio Grande. A rua namoradeira. A rua boêmia que está eternamente pronta para um baile, para uma serenata e para um crime de amor... A rua romântica, onde os poetas encontram o seu Parnaso, e os vagabundos – o seu albergue noturno e diurno... 8

 

FONTES

 

1 A ermida estaria localizada na hoje Rua dos Andradas nas imediações da Rua Caldas Júnior (Beco do Fanha). (Nota de Sergio da Costa Franco em Antigualhas – Reminiscências de Porto Alegre Ed ERUS, 1983, 101) Pg. 132

2 Pereira Coruja, Antônio Álvares, Antigualhas – Reminiscências de Porto Alegre Ed ERUS, 1983, Pg. 97, 98

3 Franco, Sérgio da Costa, Porto Alegre Ano a Ano, Ed. Letra & Vida, 2012, Pg. 7

4 Franco, Sérgio da Costa, Porto Alegre Ano a Ano, Ed. Letra & Vida, 2012, Pg. 12

5 http://lproweb.procempa.com.br/pmpa/prefpoa/vivaocentro/default.php?p_secao=16

http://lproweb.procempa.com.br/pmpa/prefpoa/vivaocentro/default.php?reg=59&p_secao=17#

7 http://lproweb.procempa.com.br/pmpa/prefpoa/vivaocentro/default.php?p_secao=78#

8 Citado no Catálogo Transformações urbanas: Porto Alegre de Montaury a Loureiro, 2008/ Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo – Secretaria Municipal da Cultura.

9 http://www2.portoalegre.rs.gov.br/vivaocentro/default.php?reg=9&p_secao=118

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