Petrópolis

Criado em Quarta, 26 Junho 2013

 

 

Pesquisa: Ana Maria Greff Buaes, Martha de Leão Lemieszek e Vera Lucia Schuch, Acadêmicas do Curso de Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, junho de 2008 - Professora: Dra Cláudia Musa Fay

 

A origem do Bairro Petrópolis decorre na sua criação do Caminho do Meio com a expansão da cidade. Em 28 de fevereiro de 1807, os vereadores pediram ao governador Paulo José da Silva Gama duas várzeas, uma junto ao Portão de acesso a cidade e outra na margem sul do Rio Gravataí, a primeira para servir de logradouro para o gado a ser utilizado pelos açougues e, a segunda para ser utilizada para descanso dos viajantes, suas carretas e carros com gado. O pedido foi atendido em outubro do mesmo ano.

A situação junto ao Portão, acesso à face norte da península, estava entre os dois caminhos vindos de Viamão, um que passava pela estrada da Azenha e outro que baixava pela periferia distante: Protásio Alves- Osvaldo Aranha. Explica Riopardense de Macedo1que:

“A ligação era feita pelo prolongamento da Rua da Graça (Andradas), continuada pelo caminho conhecido como  estrada de Baixo (Floresta - Assis Brasil), que em certo ponto, antes de descruzar o rio Gravataí, bifurcava-se para eventual acesso a Viamão. A existência deste acesso que conferia ligação a Protásio Alves -Osvaldo Aranha o nome de caminho do meio”

 

 

Depois da Revolução Farroupilha, visando a melhoria dos caminhos de ligação entre a capital e as freguesias, a Câmara Municipal aprovou em 16 de setembro de 1845 que um fiscal fosse autorizado a convidar os moradores que transitavam pela Estrada do Meio, a concorrer com o necessário para o conserto da referida estrada, afirmando Sergio da Costa Franco: “...no lugar em que a mesma se acha intransitável, próximo à Chácara dos Teles”.2

Na verdade, o Caminho do Meio era constituído de diversas chácaras, como a  Chácara Santa Casa adquirida por licitação da Irmandade da Santa Casa que havia recebido por doação testamentária;  Chácara Visconde de São Leopoldo, adquirida da família Câmara, descendentes do Visconde de São Leopoldo, primeiro Presidente da Província de São Pedro; a Chácara Felizardo,adquirida dos herdeiros de Joaquim Felizardo que mantinham tambo de leite naquela área; a  Chácara Santos Netto,  adquirida da família Santos Netto que, até então, arrendava parcelas da área, dentre outras, como a dos Telles.

 

 

Mapa do bairro com as delimitações das chácaras.

 

Assim, nos primórdios esta área apresentava características eminentemente rurais, com pequenas criações de gado, tambos de leite que abasteciam o bairro e várias regiões da cidade. Conforme o depoimento de Jorge Júlio Eichemberg, (advogado) que nos relata: 3

“ .....era uma zona rural, com criação de gado, enquanto que na parte mais baixa do Bairro , em áreas que pertenciam a Santa Casa, tinha arrendatários que exploraram o agrião, porque nesta parte baixa ficavam os valos, e aí corriam os riachos- que até hoje ainda correm lá....”

 

Ainda há registros de 1852, 1856 e 1882 da Câmara Municipal atinente à conservação e consertos do Caminho do Meio ou Estrada do Meio. Na Estatística Predial de 1892 o Caminho do Meio aparece apenas com dez prédios térreos registrados, o que confirma sua vocação rural.

Com a proclamação da República, tendo contribuído  para isto Felicíssimo de Azevedo, o Caminho do Meio passou oficialmente a ser denominado Estrada Capitão Montanha  em homenagem ao Capitão Alexandre José Montanha, oriundo do Exército português e que foi o primeiro  urbanista, engenheiro, topógrafo e agrimensor da Vila de Porto Alegre. Mas, a denominação de Caminho do Meio  já estava arraigada na mentalidade do povo e perdurou por muitas décadas ainda, mesmo depois de 1936, quando a denominação foi alterada para Avenida Protásio Alves. Justa homenagem ao médico nascido em Rio Pardo em 1858, falecido em Porto Alegre, em 5 de junho de 1933 e que foi vice-presidente do Estado por duas vezes, bem como fundador e primeiro diretor da Faculdade de Medicina de Porto Alegre.

Na virada do século, numa planta de 1916 é que se  verifica algum desenvolvimento urbano no inicio do Caminho do Meio. Neste documento já se pode ver o traçado das ruas Esperança, atual Miguel Tostes, Mariante, Francisco Ferrer, Giordano Bruno, São Manoel, Dona Leonor, São Vicente, atual Santa Cecília e Boa Vista, hoje Vicente da Fontoura, que seria o ponto extremo.

Somente um mapa municipal de 1928 é que vai mostrar quase todas as ruas atuais do Bairro Petrópolis já traçadas e denominadas. Mas o desenvolvimento só veio a ocorrer na década de 30, em conseqüência da expansão de inúmeros loteamentos. A valorização dos terrenos devia-se à atraente topografia, à amenidade do clima. Disso é  testemunha o cronista Ary Veiga Sanhudo que relata em uma de suas crônicas:

 

“Recordo apenas que em 1933, quando tive de prestar o serviço militar, ainda aluno dum Tiro de Guerra, todas as manobras de campanha de nossa turma foram executadas na colina de Petrópolis, mais ou menos aí pelo local onde hoje se encontra amoderna Caixa D’Água, precisamente ao lado da pequena e interessante Praça Buri”. 4

 

Por outro lado a valorização deu-se também com a implantação da linha de bondes da Carris em 1937, quando foi prolongada  a antiga linha do Caminho do Meio, que antes não ultrapassava a Rua Vicente da Fontoura e que foi estendida até a esquina da Rua Carazinho criando-se a linha de bondes Petrópolis.

E, ainda, como o bairro crescia, o Prefeito Antônio Brochado da Rocha determinou através de um decreto de 1944, o alargamento da Avenida Protásio Alves de 22 para 30 metros, mediante recuo progressivo das construções. A exata delimitação do Bairro Petrópolis, que ficou definida pela Lei municipal 2.002, de 1959:

 

Petrópolis - Bairro cuja delimitação ficou assim definida pela Lei 2.002, de 1959; Rua Vicente da Fontoura, esquina da Protásio Alves, até encontrar a Avenida Ipiranga; por esta (talvegue do Arroio Dilúvio), em direção oeste-leste, até encontrar o ponto de convergência desta avenida com a Rua Gen. Tibúrcio; Rua Gen. Tibúrcio; Rua Eça de Queiroz, Rua Itaboraí até a Rua Machado de Assis; por esta última rua até a Rua Felizardo; por esta até encontrar a rua Felizardo Furtado; por esta até o limite norte com o Jardim Botânico, e por este limite, sempre em linha reta, seca e imaginária, em direção oeste-leste, até encontrar a Estrada Cristiano Fischer, por esta até a Av. Protásio Alves; por esta até a Av. Carlos Gomes; por esta na direção leste-oeste, até a Av. Nilópolis, por esta até a rua Jaime Teles; por esta até a Rua Passo da Pátria; por esta até a Rua Vicente da Fontoura; por esta até encontrar a Protásio Alves. 5

 

O bairro nasceu, tendo por eixo viário o velho Caminho do Meio, que hoje é a Avenida Protásio Alves. De simples área rural evoluiu, no fim da década de vinte, para área suburbana de rápida expansão, devido a vários loteamentos que ali se implantaram, e que se valorizaram graças à atraente topografia, à maior amenidade do clima e a introdução de linhas de ônibus.

O loteamento do bairro Petrópolis, iniciado em meados de 1920, foi realizado pela empresa Schilling, Kuss & Cia. Ltda, constituída pela sociedade entre Jorge Julio Schilling e seu genro Arthur Eduardo Kuss no ano de 1926. Posteriormente, na década de 1970 foi implantado o loteamento Chácara Santos Netto, cuja maior parte se situa no Bairro Bela Vista. Em 1981, a empresa foi vendida para as Máquinas Condor Ltda., atual Imobiliária Condor Ltda. Também na década de setenta, foi efetuado os tramites legais para a regularização da transformação da região da Chácara de São Leopoldo em área urbana, conforme o documento que segue: 6

 

 

Jorge Schilling (1859-1939) iniciou sua atividade profissional como caixeiro-viajante, além de ter uma grande habilidade para vendas, possuía uma mentalidade progressista, no sentido de antever o desenvolvimento urbano da cidade, e perceber o grande potencial imobiliário da região que seria futuramente o bairro Petrópolis. Assim sendo, aplicou seus recursos em uma área ainda pouco valorizada, mas, seguindo sua intuição empreendedora, sabia que precisava suprir a região de certos requisitos necessários para o seu desenvolvimento urbano, como distribuição de água, fornecimento de luz e transporte coletivo. Para o abastecimento de água, a empresa construiu o depósito na Avenida Carlos Gomes - atual SMAM - e respectivas bombas de recalque na Avenida Bagé, que foram posteriormente assumidos pelo DMAE, sem nenhum sem ônus para o mesmo, instalando também, os postes de luz, doados posteriormente à CEEE, que efetuou a fiação. E mais tarde, a partir dos anos trinta, a empresa estendeu a linha de bonde, bem como, posteriormente subvencionou a linha de ônibus até a Chácara das Pedras.

Em 1928, o mapa municipal de 1928 já apresentava em Petrópolis uma significativa malha viária, embora o povoamento ainda fosse escasso. Em 1937, prolongando a antiga linha “Caminho do meio”, a Companhia Carris criou a linha de bondes Petrópolis.

Em 28 de maio de 1928, a empresa Schilling-Kuss & Cia. Ltda executa a venda do lote número 5 da quadra 32, situado na rua Bagé, ao Sr. Jacinto Dandim, iniciando assim mais de cinco mil contratos efetuados pela empresa nos cinquenta e três anos que atuou como loteadora - tendo nesse período loteado todos os seus terrenos no bairro Petrópolis. O depoimento do neto de Jorge Schilling 7 , Jorge Julio Eichemberg, relata como foi importante para o desenvolvimento do bairro, a iniciativa de seu avô:

 

“.. Na década de 30, os bondes iam até a esquina da João Abott, mas ele (Jorge Julio SchiIling) entendeu que, para haver sucesso na urbanização e tornar viável a venda dos lotes, deveria haver condução e  teria que ser o bonde, já que era a condução da época, aí a Carris —na época, propriedade de uma empresa estrangeira, Bond & Share —não via resultado prático imediato nenhum, e, já que eram áreas vazias recusaram a prolongar a linha do bonde “Protásio Alves’ e, com isso, tornava- se inviável qualquer projeto de loteamento. Então meu avô bancou e fez, digamos assim, um empreendimento de certo risco, mas ele correu o risco, pois tinha absoluta certeza que aquela área seria uma das melhores de Porto Alegre e bancou o prolongamento até a Igreja, de um lado, e o cinema ‘Petrópolis’, posteriormente de outro. “

 

O depoimento do padre Zeno Hastenteufel, pároco da Igreja S. Sebastião.8 nos dá a dimensão da importância do bonde como propulsor do desenvolvimento do bairro.

 

“Petrópolis era o fim da linha, era o fim de Porto alegre. Aqui na frente da Igreja era o fim da linha de bonde. Pergunta para as todas pessoas idosas onde é que era o fim da linha do bonde, elas vão dizer: em frente ao cinema Ritz. Em frente à Igreja S. .Sebastião era o fim da  linha do bonde. A Protásio Alves não era asfaltada, o asfalto só ia até a Carazinho. Então, lá em cima, era a estrada que para Burro dava, mas não para carro. Então aqui hoje se localiza a Igreja era o comércio local, casas bonitas e tal..”

 

Bonde da linha Petrópolis

Fotografado na Avenida Protásio Alves

Próximo ao final da linha PETRÓPOLIS

Em janeiro de 1957 por William Janssen9

.

Segundo depoimentos de moradores da região, a vida social e comunitária durante a formação do bairro teve uma forte ligação com a Paróquia São Sebastião, que foi inicialmente uma modesta capela, em uma casa de madeira na Rua João Abott, esquina com a Carazinho, onde hoje  está localizado o edifício Carazinho. A inauguração da paróquia se efetua em 1933, com a licença para a sua construção datada de 3 de outubro de 1930:10

 

LICENÇA PARA CONSTRUÇÃO DA IGREJA

Porto Alegre, 3 de Outubro de 1930

Exmo. E Remo. Sr.

D. João Becker

O infra-scripto vem pedir a V. Exa. Licença para construir no arrabalde de Petrópolis a Igreja de S. Sebastião conforme planta apresentada.

Recebeu a igreja a quantia de 10.000 tijolos e areia para toda a construção, da companhia de terrenos Schilhng e Cia. A dita companhia entrou ainda com a importância de 500$000que serão pagos mensalmente em quotas de 5O$000. Tem a mencionada igreja a promessa de seis contos (6:000$000) por parte do Cônego Tiecher e mais dois contos (2:000$000) por parte de Mons, Berwanger. Ultimamente assinou o Sr. Jacob Botelli no Livro de ouro a importância de (1:000$000) um conto que irá pagando aos poucos. Ainda outras promessas existem de contribuições não muito inferior as mencionadas.

Nestes termos peço a V.Exa. benigno deferimento e

E.O.M.

Pe. Ponciano dos Santos Stenzel

 

Em 1945, D. João Becker, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre, aprova a Comissão de Obras da nova igreja, que seria erguida na Avenida Protásio Alves. Em 25 de Janeiro de 1953, é inaugurada a nova igreja neste local.

 

A nova igreja de São Sebastião

que está até hoje na

 Avenida Protásio Alves.

 

Um outro relato do Padre Zeno Hastenteufel, 11 realizado durante o ano de 2000, confirma o inicio da capela em 1928:

 

“A Paróquia de São Sebastião, Petrópolis, foi fundada em 1933, portanto estamos para completar, agora, 67 anos. Mas a primeira noticia que se tem remonta a 1928, quando o padre Matias Wagner recebeu provisão para fazer a Capela São Sebastião de Petrópolis. E nós sabemos que em 3/10/1930 o padre Ponciano dos Santos Stenzel pediu autorização para construir uma capela na rua João Abott, esquina coma Carazinho. Esta Capela, hoje aqui na Protásio, foi construída entre1932- e 33, junto ao cinema, que naquele tempo existia o Cinema Petrópolis, que também pertencia à Paróquia. Este investimento trouxe dívidas que chegaram a ameaçar a jovem Paróquia, mas que se atenuaram a partir de 41, devido à enchente, quando muita gente abandonou as zonas alagadiças na beira do rio e veio morar aqui em Petrópolis...”

 

Existe dois marcos da história do bairro que se ligam à paróquia, quando, ainda capela, o atualmente extinto cinema Petrópolis e, o ainda atuante Colégio Santa Inês. O fato que chama a atenção é um cinema ser vinculado a uma igreja, conforme o relato de Artenio Cola, um morador do bairro neste período:

 

“...Quando construíram a Igreja São Sebastião, meu pai até participou da construção, meus irmãos eram carpinteiros e ajudaram no telhado dessa igreja (...) mas feito essa igreja eles adquiriram uma dívida (...) resolveram então, fazer o cinema, o cinema Petrópolis (...) na parte térrea desse cinema, fizeram a casa paroquial e quatro salas de aula e eu estudei ali dos oito até os dez anos de idade (...) Construíram o cinema, eram bem intencionados, queriam conseguir dinheiro com o cinema para saldar as dívidas (....) mas o negócio não resolveu a situação”. 12

 

O cinema foi um investimento da própria paróquia, era uma construção de madeira, com cadeiras de madeiras. Mesmo tendo uma projeção e som muito bom, ficou enquadrado na terceira categoria dos cinemas da cidade, fato este que resultou no baixo tabelamento das sessões de exibição. Conforme lembram os antigos freqüentadores de salas de cinema daquela época, existiam em Porto Alegre, 3 categorias de cinemas, na segunda faixa  se encaixavam os cinemas Coliseu, Garibaldi e Carlos Comes, e a categoria superluxo, ou seja, de primeira categoria, eram os cinemas do centro como o Vitória, Ópera, Imperial ou o Guarani que tinham uma melhor estrutura e, também adotaram o sistema “scope” um sistema avançado na época —1952. Essas diferenças legavam aos cinemas de terceira categoria, problemas de equilibro de orçamento, já que o preço da entrada cobrada não cobria mais o próprio aluguel das fitas, que eram relativamente caras na época. No caso especifico do cine Petrópolis, tornou-se difícil sua manutenção, acarretando prejuízo e dívidas à paróquia. O cinema Petrópolis permaneceu no bairro até 1952, quando fechou definitivamente, ficando apenas em atividade cinema Ritz na Avenida Protásio Alves.

A história do Colégio Santa Inês inicia-se com a Escola Paroquial que funcionava no prédio do antigo cinema Petrópolis, mantida pela Paróquia. O cinema depois de vendido pelo vigário geral Mons. Neis ao Senhor Stefan Fricher precisou ser desocupado. Então a Escola Paroquial foi transferida para a chácara do Sr. Flácido Toniolo e duas Irmãs, que cuidavam da capela Bom Fim a pedido de Dom João Becker, aceitaram a direção da Escola Paroquial, transferindo-a, em seguida para a velha casa na chácara do Sr. Toniolo. O Colégio Santa Inês começa a crescer. Na década de 1950, o Colégio contava apenas com o primário.

O depoimento do jornalista Hiron Cardoso Goidanich, mais conhecido pelo seu pseudônimo ”Goida” 13  dá uma dimensão da importância do cinema Petrópolis como ponto de encontro social dos moradores do bairro nesse período:

 

“...Logo que cheguei no Petrópolis em 1948, eu tinha 14 anos, já de saída foi um deslumbramento para mim, porque aqui na rua João Abott, ali na esquina com a Carazinho, tinha uma igreja e ao lado da igreja um cinema chamado Petrópolis, quer coisa mais agradável que ter um cinema no seu bairro - e ainda na sua própria rua. Realmente foi um deslumbramento minha chegada aqui (...) Quando nós éramos pequenos, o cinema fazia parte importante da nossa vida (...) a missa dominical que nós achávamos um aborrecimento, mas que nossas mães nos obrigavam a ir, se era menos enfadonha pois sabíamos que depois poderíamos ir ao cinema, aí sim , era o paraíso, as sessões de cinema não raro sessão dupla. Até filmes como “Tempos Modernos” de Charles Chaplin, que fazia uma sátira ao fascismo que dominou a Europa de 1930 até 45, a gente ia ver, mesmo não tendo dimensão do envolvimento da história com a Segunda Guerra Mundial...”

 

Tanto o surgimento da Paróquia, quanto a importância do papel desempenhado pelos bondes, são lembranças constantes entre os moradores do bairro que vivenciaram esta época.

Uma questão tratada com muita seriedade pelos primeiros loteadores foi a arborização, que levou ao plantio de elevado número de palmeiras - árvore muito apreciada na época - e eucaliptos, substituídos aos poucos, devido ao envelhecimento das raízes, pelos cinamomos, árvore  característica do bairro hoje. Segundo nos conta Jorge Julio Eichemberg, isso foi também um dos cuidados do seu avô: “Meu avô gostava muito de palmeiras, que estavam na moda, eu creio, depois eu lembro quando surgiu o eucalipto, aí ficou uma coisa fantástica...”.  Essa é uma das características mais marcantes do bairro, que se mantém até os dias de hoje.

Outro tema interessante é a origem do nome do bairro “ Petrópolis”. A palavra, que na sua origem etimológica significa cidade de pedra, mas isso apenas, não explicaria o nome do bairro, mas é uma entre as hipóteses levantadas. Outra explicação encontrada, diz respeito a uma homenagem do pioneiro loteador ao Imperador Dom Pedro II que, além de simpatizante da monarquia, mantinha relações com a família real e, posteriormente, correspondência com os filhos da Princesa Isabel, mesmo após a partida da família real para Portugal.

Diante do contexto político do país na época, Jorge Schilling, manteve-se fiel as suas tradições monarquistas de juventude, isso pode ser endossado pelo fato, que quando adquiriu as terras correspondentes hoje ao bairro Higienópolis, Schilling conseguiu que a principal avenida fosse denominada Dom Pedro II.

Segundo relatos de seus descendentes 14, quando contestado pelos seus netos sobre a superação da monarquia e a implantação da Republica, Schilling argumentava:

 

“...mas olhem só, comparem às figuras dos presidentes aquela de Dom Pedro II, aquela austeridade, aquela imponência, aquela seriedade, por isso eu dei o nome dele para o bairro...”

 

Quanto aos nomes das ruas do bairro, na época — década de 1920 — tomadas por nomes próprios femininos, como Dona Emilia, Dona Laura, Dona Luiza, que  faziam menção às mulheres de sua família: filhas, tias e sobrinhas ou de figuras femininas do conhecimento público, mesmo que apenas nas imediações das nascentes áreas loteadas. Mais tarde, porém, por exigência da Câmara, esses nomes tiveram de ser substituídos, prioritariamente, por nomes de pessoas que tivessem alguma ilustração no âmbito nacional ou regional, de preferência homens. As substituições aconteceram, sendo os primitivos nomes femininos substituídos por nomes de cidades do interior do nosso Estado, uma saída habilidosa, encontrada pelo loteador.

Todavia, permaneceram alguns antigos nomes femininos, como é o caso da rua Dona Alice, Dona Eugênia, Dona Lúcia e Dona Oti, esta última, entretanto, sem relação de parentesco com a família de Jorge Schilling, era uma antiga moradora da região e proprietária dos terrenos onde se abriu a rua.

Outro fator que acelerou o crescimento do bairro foi a enchente de 1941 que causou muitos danos à cidade, sendo o centro de Porto Alegre uma das regiões mais atingidas. Assim, a partir de meados da década de 1940, iniciou-se expansão urbana, onde uma classe média emergente buscava uma nova área para fixar residência, que fosse, preferencialmente, em regiões mais altas que o centro. Entre essas áreas encontrava-se o bairro Petrópolis, tornando-se a partir de então, um local ideal para moradia.  Começa uma supervalorização imobiliária de seus terrenos.

Uma peculiaridade do bairro Petrópolis, publicada no dia 08/09/1969 na Folha da Tarde 15 nos relata que o primeiro bairro que teve a coleta de lixo acondicionado em sacos plásticos foi o bairro Petrópolis. Segundo o arquiteto Julio Rubbo “a escolha por este bairro, foi por ser uma região homogênea, “tecnicamente para este tipo de serviço que estamos implantando [...] para um teste deste tipo, tem que ser feito em um área compacta e homogênea, e para isso não vejo similar em Porto Alegre[...]  escolhemos também esta zona porque para o transporte ela apresenta condições favoráveis  com ruas melhores pavimentadas e mais planas.”

 

Foto aérea16

 

Um caso muito especial, a Churrascaria Barranco: uma síntese do antigo e do moderno.

 

 

Aquarela com o desenho da casa da Chácara dos Telles que se encontra atualmente na Churrascaria Barranco.

 

A Churrascaria Barranco foi inaugurada em abril de 1969 com 400 lugares e explorada por Oswaldo Silveira e seus sócios Tasca e Vicenzo que já tinham experiência no ramo de restaurantes. Na casa principal da Chácara dos Telles encontram-se hoje o salão fechado do Barranco, a parte da caixa e as churrasqueiras.

Esta Chácara foi construída por Joaquim Pantaleão Telles de Queiroz e era composta por diversas casas. Naquela época não havia grandes construções no então Caminho do Meio, por lá passavam tropeiros. Os que lá viviam dedicavam-se ao cultivo de algumas plantações e ao cuidado com animais.

A propriedade dos Telles ia até a baixada onde hoje é a Rua Mostardeiro, à época também Chácara Mostardeiro. Os Telles, família de tradição militar, foram os primeiros proprietários do terreno, tanto é assim, que as ruas que circundam a antiga Chácara levam o nome de seus habitantes: Jaime Telles, rua lateral ao Barranco, Amélia Telles, distante a poucas quadras do restaurante, Perpétua Telles e ainda no Bairro Bonfim, a Rua General João Telles, em homenagem ao veterano da Guerra do Paraguai que resistiu o cerco de Bagé em 1893.

A Chácara coube por herança a Rômulo Telles Pessoa no tempo em que vivia na Avenida João Pessoa com a família. Naquele tempo para se chegar à Chácara levava-se quase um dia inteiro de viagem pela estrada do Caminho do Meio, de carroção e com muita dificuldade visto que a subida era íngreme.

Um dos filhos de Rômulo, Ênio foi a última geração a viver no local lá pelos anos de 1950. Depois a casa foi ocupada por uma escola, a Recanto Infantil, até a abertura da Churrascaria Barranco que com quase quarenta anos de funcionamento ininterrupto tem o mérito de preservar, embora com muitas alterações, uma autentica sede das antigas chácaras do Caminho do Meio.

 

 

“Ofereço este trabalho artístico do pintor gaúcho Carlos Lubisco, aos proprietários da “Churrascaria Barranco” guardiã de um marco da história militar do Brasil “.

Porto Alegre, 02 de dezembro de 1984.

Carlos Lopes dos Santos17

 

Nina e a mãe D. Jurema em 1956. Nina é filha de Ênio, e foi quem recordou esse passado e com muito orgulho ajudou a reconstruir a história dos Telles para a revista do Barranco.

 

Nina e a mãe, D. Jurema em 2008, no mesmo local da foto de 1956.

 

FONTES:

 

1MACEDO, Francisco Riopardense de. História de Porto Alegre. Porto Alegre: Ed. Universidade/ UFRGS,

1993, p. 42,43.

2 FRANCO, Sergio da Costa. Porto Alegre: Guia Histórico.Porto Alegre: Ed.da Universidade/ UFRGS,

1998, p.

3 Porto Alegre. Prefeitura Municipal. Secretaria Municipal da Cultura, Petrópolis, Porto Alegre. Unidade editorial da Secretaria Municipal da Cultura, (Memória dos Bairros, 13) 2002. p.25.

4 SANHUDO, Ari Veiga. Petrópolis crônicas da minha cidade. Porto Alegre. Ed. Movimento,1975,p. 138.

5 FRANCO, Sergio da Costa. Porto Alegre: Guia Histórico.Porto Alegre: Ed. da Universidade/ UFRGS, 1998, p.320.

6 Porto Alegre. Prefeitura Municipal. Secretaria Municipal da Cultura, Petrópolis, Memória dos Bairros, Porto Alegre: Unidade editorial da Secretaria Municipal da Cultura, 2002. p. 44.

7 Porto Alegre. Prefeitura Municipal. Secretaria Municipal da Cultura, Petrópolis, Porto Alegre. Unidade editorial da Secretaria Municipal da Cultura, (Memória dos Bairros, 13) 2002. p.45.

8 Porto Alegre Idem, p.43.

9 http// www.Tramz.Com/br/pa/pap.html acesso em 06/062008

10 Porto Alegre. Petrópolis, (Memória dos Bairros, 13) 2002. p. 54.

11 PETRÒPOLIS, Idem.

12 PETRÓPOLIS, Ibdem, p.56.

13 PETROPOLIS, Ibdem, p.57.

14 PETRÓPOLIS, Ibdem, p. 48.

15 Jornal vespertino, em forma de tablóide, que pertencia à Companhia Jornalística Caldas Junior e circulou no RS de 1936 a 1983.

16 Esta foto faz parte do acervo do Museu Joaquim Felizardo /Fototeca Sioma Breitman. Vista aérea de Petrópolis, por volta da década de 1950. Foto de Leo Guerreiro e Pedro Flores de 1956, aparecendo na lateral direita a rua Barão de Amazonas e a transversal rua Artigas e rua Guilherme Alves.

17 Transcrição da dedicatória que se encontra na aquarela .

 

PESQUISA:

 

FRANCO, Sergio da Costa. Porto Alegre: Guia Histórico.Porto Alegre: Editora Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1992.

MACEDO, Francisco Riopardense de. História de Porto Alegre.Porto Alegre: Ed. Universidade/ UFRGS, 1993.

PORTO ALEGRE, Prefeitura Municipal.  Petrópolis – Memória dos Bairros - 13 Porto Alegre: Unidade editorial da Secretaria Municipal da Cultura, 2002

PESAVENTO, Sandra Jatahy. Memória Porto Alegre: espaços e vivências. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1999.

SANHUDO, ARY VEIGA. Crônicas de minha cidade.Porto Alegre. Ed Movimento, 1975.

Revista do Barranco abril/maio Ano I. número 1 Ed. Futura RS. Comunicação & Marketing, 2008.

Arquivo Histórico Porto Alegre Moysés Vellinho;

Museu Joaquim José Felizardo;

http:// www.prati.com.br/

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