Padre Landell de Moura

Criado em Quarta, 17 Julho 2013

 

 

 

O PADRE LANDELL DE MOURA

 

 

A figura de um homem alto, magro, todo de preto, a caminhar com passos cadenciados pelo centro de Porto Alegre em direção ao cinema Central, na Praça da Alfândega, pôde ser notada por algum tempo. Sentava-se na sala de espera a ouvir as músicas suaves das pequenas orquestras que se apresentavam no cinema de filmes mudos. Não falava, e os olhos se perdiam no nada. Nessa transição de séculos, do 19 para o 20, a Capital tinha, sem saber, um gênio com o singelo hábito de passear pelas calçadas da Rua da Praia: padre Roberto Landell de Moura (1861-1928).

Mauro Toralles

 

 

 

Padre Landell de Moura

 

 

Um cientista múltiplo e inquieto 1

 

Em que pensaria o padre enquanto se abstraía do mundo ao embalo musical ou das janelas da casa onde nasceu, esquina da mesma Rua da Praia com a da Bragança, hoje Marechal Floriano? Os ponteiros dos relógios diriam que nas muitas fórmulas de suas experiências, que o colocavam desafortunadamente à frente de seu tempo. O castigo seria viver incompreendido e sem o reconhecimento da importância de seu trabalho.

Precoce, aos 16 anos construía um aparelho telefônico, apenas um ano depois de Graham Bell. E aos 24, em 1886, formulava as primeiras ideias sobre a teoria da “unidade das forças físicas e a harmonia do universo”, que o fariam mudar o rumo das telecomunicações. Para os costumes da época, era muito. Para quem vivia abaixo da linha do Equador, distante milhares de milhas da sociedade desenvolvida, era muito mais. Landell de Moura sempre teve pouco além do apoio de amigos para tocar seus projetos, que não foram poucos nem pequenos.

Poderia ter ficado em apenas um – a invenção do transmissor da voz humana, o precursor do rádio como o conhecemos, ou melhor dito, o próprio rádio – e ainda assim seria grande.

O transmissor de voz

 

Mas foi adiante. Criou um sistema de telegrafia sem fio e o teletipo e projetou a televisão muito antes de outros cientistas. Basta dizer que a primeira demonstração de funcionamento da TV data de 1926. Em agosto de 1904, ele denominou sua invenção de “The Telephotorama ou a Visão à Distância”. E o que dizer da utilização da luz para transmitir mensagens, o princípio da fibra ótica, ou do controle remoto por rádio?

Distância é uma palavra boa para definir tudo o que fez. Ele voou para muito longe daqueles anos, rompeu as linhas da imaginação em tantas direções que se tornou um criador múltiplo, coisa rara. Descobriu e fotografou a aura humana, fenômeno reconhecido oficialmente só em 1939, com méritos atribuídos aos Kirlian, um casal russo. Espiritismo e hipnose também frequentaram sua rotina de pesquisador inquieto. O famoso caderno onde rabiscava suas dezenas de anotações em uma letra quase incompreensível é prova silenciosa do quanto pensou e experimentou.

Não é de estranhar que, ao descrever até comunicações interplanetárias, ganhasse só desconfiança num país incipiente. O “não” foi a resposta que ouviu do governo Rodrigues Alves quando propôs, ao presidente, em 1908, a cessão de dois navios da Marinha para uma demonstração de seus inventos. Um “não” duro, desmoralizante, diferente do “não” cheio de esperanças no Brasil com que negou oferta de empresários americanos para comprar-lhe as patentes de seus inventos. A eles, respondeu:

– Não, desculpem-me. Agradeço infinitamente tamanha generosidade, mas estes inventos já não mais me pertencem. Por mercê de Deus, sou apenas depositário deles. Vou levá-los para minha pátria, o Brasil, a quem compete entregá-los à Humanidade.

Deu no que deu. Foram entregues, sim, aos pedaços, para que outros cientistas os aproveitassem depois que a validade das patentes expirou. De seu país, ganhou como apoio uma patente reconhecida, e da Igreja Católica, uma licença para ir aos Estados Unidos, onde passaria um tempo trabalhando nas suas criações e tratando de oficializá-las, o que conseguiu.

Na terra dos tucanos e das araras, não seria mais do que um errante, de diocese em diocese, a receber desconfiança por pesquisas consideradas tão estranhas, ao ponto de ter seu laboratório em Campinas (SP) destruído. Humilde e desapontado, a tudo tratava de desculpar. Enquanto isso, no norte avançado do planeta, o croata Tesla se naturalizava americano para melhor prosperar, e o italiano Marconi comercializava à vontade. Tinham o mundo às mãos e o prestígio por suporte.

Para Roberto Landell de Moura, o padre de sua Porto Alegre querida, que nunca lhe fez justiça nem com uma placa de rua, sobraram as sombras. Mas o 16 de julho de 1899 não pode ser apagado. A transmissão da voz feita em São Paulo está registrada. Um marco, para ser reparado no sesquicentenário de nascimento deste gênio gaúcho, no dia 21 de janeiro.

 

ESTUDOS E INVENÇÕES 2

 

Aos 16 anos, Roberto Landell de Moura fez a autópsia de um gato e estudou a influência que a eletricidade atmosférica podia ter sobre o corpo do animal. Também elaborou composições químicas, inclusive uma para extrair a cárie dos dentes, e construiu um telefone. Não se sabe como era constituído esse aparelho. O que se conhece é que foi criado apenas um ano depois do aparelho de Graham Bell, sem que ele tivesse visto algum modelo.

Por volta de 1907, padre Landell descobriu que os corpos de todos os seres vivos são circundados por um halo luminoso que, sob determinadas condições, pode ser fotografado. Ele fotografou o fenômeno, que só foi descoberto oficialmente por um casal soviético em 1939, e passou a ser chamado de efeito Kirlian ou bioeletrografia.

Em 1906, na cidade de Mogi das Cruzes, Padre Landell praticou o exorcismo em uma menina. Diante do sobrenatural, criou instrumentos e aparelhos de aferição com o intuito de evitar engano, mistificação ou alucinação. No ano seguinte, foi obrigado a pedir demissão da paróquia.

Em 1916, ao lado da Igreja do Rosário, em Porto Alegre, abriu um “gabinete de antropologia experimental” para o estudo do hipnotismo e do espiritismo. Queria provar que tais fenômenos seriam resultado de ações no sistema nervoso central e periférico.

Landell é autor de inúmeros aparelhos, inclusive um sistema de telegrafia sem fio. Projetou a TV e o teletipo bem antes de outros cientistas. O seu aparelho de telegrafia foi patenteado nos EUA, em 1904, o que significa que, naquele momento, tinha originalidades, ou seja, poderia ser considerado um aperfeiçoamento do já existente. Não se destaca muito isso porque, afinal de contas, Marconi largou na frente na telegrafia sem fio, e não há nenhuma dúvida disso. Destaca-se, sim, a transmissão de voz de Landell porque esta foi a sua grande invenção patenteada no Brasil e nos EUA e se refere ao rádio tal como o conhecemos.

 

Landell ou Marconi? 2

Landell projetou a televisão e o teletipo no início do século 20, muitos anos antes das descobertas oficiais dessas invenções – 1926 e 1928, respectivamente. Ao lado de Nikola Tesla, foi um dos pioneiros na concepção do controle remoto pelo rádio. Como se não bastasse, vislumbrou as comunicações interplanetárias.

No campo da transmissão da voz, o Canadá reconhece que o físico Reginald Aubrey Fessenden, e não Marconi, é o inventor do rádio. Fessenden se destacou por ter feito experiências em dezembro de 1900. A patente de radiotelefonia de Fessenden é de setembro de 1901 – obtida, portanto, após a patente brasileira de Landell. Os cientistas Poulsen (1902) e Majorana (1903) também transmitiram a voz à distância. Marconi só realizou experiências do gênero em 1914!

 

Selo Comemorativo 3

Para comemorar os 150 anos de seu nascimento, os Correios lançaram um selo comemorativo e a prefeitura da Capital instituiu o ano de 2011 como o “Ano da Inovação Padre Landell de Moura”. O padre foi pioneiro na transmissão da voz humana sem fio (radioemissão e telefonia por rádio) e é o patrono dos radioamadores do Brasil.

 

 

Do Livro dos Heróis aos livros de História 4

O padre e cientista porto-alegrense Roberto Landell de Moura enfim ganhou seu reconhecimento. Um dos precursores do rádio é oficialmente um ícone nacional. Depois de conseguir aprovar a entrada do religioso no Livro dos Heróis da Pátria5, o movimento que leva o nome do gaúcho batalha para colocar sua história nos livros didáticos.

O esforço resgata a importância do padre nascido em 21 de janeiro de 1861. Em 1886, foi ordenado padre em Roma, onde estudou teologia, física e química. Em 1894, emitiu ondas luminosas e eletromagnéticas de um equipamento na Avenida Paulista, em São Paulo. A experiência despertou suspeitas de católicos conservadores, que acusaram o padre de feitiçaria. Fanáticos invadiram seu laboratório e quebraram instrumentos de pesquisa.

Presente na virada do século 19 em manchetes na imprensa paulista e norte-americana, em virtude dos experimentos e patentes para transmissão de voz sem fios, morreu esquecido, aos 67 anos, em Porto Alegre. À época, os louros pela invenção do rádio acabaram com o italiano Guglielmo Marconi, uma injustiça segundo o jornalista Hamilton Almeida.

– O que Marconi inventou foi o telégrafo. Seu sistema transmitia sinais sem fio. O padre Landell transmitia voz humana, o rádio. Foi um precursor das telecomunicações – explica Hamilton, autor de quatro livros sobre o religioso, entre eles Padre Landell de Moura: Um Herói sem Glória.

O jornalista também é um dos idealizadores do Movimento Landell de Moura (MLM), responsável pela luta que resultou no projeto de lei apreciado no Congresso e sancionado, trâmite que colocou o gaúcho no Livro dos Heróis. Também conhecida por Livro de Aço, a publicação fica no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves6, na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Destaca brasileiros que contribuíram para a defesa e construção do país. Hoje tem grafado 10 nomes, como Tiradentes e Duque de Caxias. Os gaúchos Plácido de Castro e Almirante Tamandaré estão no livro, que ganhará acréscimos assim que a reforma do Panteão for concluída, em julho.

Vencida a etapa do Livro de Aço, o MLM concentra os esforços para colocar no currículo das escolas a história do religioso gaúcho, reconhecido pelo pioneirismo no rádio.

– Já iniciamos as conversas com o Ministério da Educação. Mostrar para as criança quem foi o padre é mais do que justo – defende o jornalista Eduardo Ribeiro, integrante do MLM.

 

A morte de Landell de Moura 7

Em 30 de junho de 1928 morreu em Porto Alegre o padre Roberto Landell de Moura (no detalhe). Ele era então vigário da paróquia de Nossa Senhora do Rosário, no centro de Porto Alegre, onde foi enterrado. Landell de Moura notabilizou-se como inventor, com experiências que se anteciparam ou foram contemporâneas às da telegrafia sem fio, que levaram à invenção do rádio. Por seu pioneirismo, foi escolhido como o patrono dos radioamadores brasileiros. Os seus trabalhos foram noticiados em 12 de outubro de 1902, no jornal americano The New York Herald, em reportagem sobre as experiências desenvolvidas na época, inclusive por cientistas americanos, alemães, ingleses dentre outros, na transmissão de sons sem uso de aparelhos com fio. Ressalta o jornal: “Entre os cientistas, o brasileiro padre Landell de Moura é muito pouco conhecido. Poucos deles têm dado atenção aos seus títulos para ser o pioneiro nesse ramo de investigações elétricas. Mas antes de Brigton e Ruhmer, o padre Landell, após anos de experimentação, conseguiu obter uma patente brasileira para sua invenção, que ele chamou de Gouradphone”. Landell de Moura era gaúcho de Porto Alegre, onde nasceu em 21 de janeiro de 1861. Morreu no Hospital da Beneficência Portuguesa, ao 67 anos, de tuberculose.

 

FONTES:

 

1 Texto de autoria de Mauro Toralles, pela passagem do sesquicentenário do nascimento do Padre Landell de Moura, publicado no jornal Zero Hora, edição de 15 de janeiro de 2011

2 Jornal Zero Hora de 15/1/2011

3 Jornal Zero Hora de 21/1/2011

4 Texto de autoria de Guilherme Mazui, publicado no jornal Zero Hora, edição de 5 de maio de 2012

5 Livro dos Heróis da Pátria: Foi criado em novembro de 2007 (Lei 11.597). Encontram-se nesse livro nomes como os de Joaquim José da Silva Xavier - o Tiradentes, Zumbi dos Palmares, Marechal Deodoro da Fonseca, Dom Pedro I, Duque de Caxias, Almirante Barroso, Santos Dumont, José Bonifácio

6 Monumento de arquitetura modernista, o Panteão da Pátria está localizado na Praça dos Três Poderes, em Brasília

7 Jornal Zero Hora de 28/6/10

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